Fettine alla Pizzaiola

10 abr

Esse prato fiz pro meu almoço/jantar de hoje e juro que não pensei nele com antecedência. Ele acabou acontecendo meio sem querer, tomou forma sozinho e se materializou ali no meu fogão. Ficou tão, mas tão bom, que eu acho que deveriam canonizar as alcaparras e as azeitonas pretas. Aliás, como já disse antes, deveria ser proibido fazer molho de tomates sem essas duas belezuras!

Tinha em casa um corte lindo de steak argentino e minha idéia era prepará-lo na grelha, acompanhado de umas batatinhas que aprendi a fazer com Jamie Oliver e que já estão virando “de casa”, de tanto que fazemos por aqui. Porém quando fui me servir achei o steak muito tristinho e o prato meio sem cor… Então apelei pro poder mágico dos molhos e num livro de receitas que trouxe da nossa viagem a Veneza (comprado num sebo lindo de tudo!) achei essa receita de Fettine alla Pizzaiola, que nada mais é do que bife com molho de tomate. Simples assim!

Só que o livro do sebinho é bem bom e o molho da receita era caprichado: levava tomates, alho, azeite extra virgem, vinho tinto, azeitonas pretas e alcaparras (que eu, por sorte, tinha comprado para fazer uma pasta alla putanesca – prometo passar a receita depois!). Tomate, tinha uns fresquinhos na geladeira. Alho? Há menos de uma semana fiz dois potões de tempero caseiro de alho, cebola e sal, super concentrado e simplesmente delicioso! Vinho tinto? Opa, temos o delicioso Masi Campofiorin que sobrou do almoço de Páscoa!

Então, com todos os ingredientes em casa, resolvi incrementar meu já delicioso almoço e acabei degustando um prato inédito pra mim – e de tão bom, mereceu registro (ou vocês acham que saio fotografando qualquer pão com mortadela que como por aqui, rs?)

INGREDIENTES:

- corte de filé bovino (eu fiz com um corte grosso de steak argentino que já tinha em casa mas você pode usar o que tiver por aí: bifinhos de alcatra, contra-filé, etc)

- 5 batatas pequenas (lavadas, porém com casca)

- 1 tomate grande e maduro

- 8 azeitonas pretas (sei que dá mais trabalho, mas as que compramos a granel com caroço são infinitamente mais saborosas que essas de latinhas/potinhos já descaroçadas)

- 3-4 alcaparras

- 1 colher de sopa de tempero alho e sal (aqui você pode substituir por 2-3 dentes de alho cortados em rodelas)

- 1 “dedo” de vinho tinto

- 1/2 limão

- azeite extra virgem

- 1 raminho de alecrim fresco (nunca fiz com o desidratado mas deve dar certo)

- sal à gosto (eu uso flor de sal, não sei se é cisma minha mas o sal refinado daqui não salga nada, rs)

- pimenta do reino à gosto (gosto da moída na hora mas aquela que já vem em pozinho funciona também)

- orégano seco, também à gosto

MODO DE PREPARO:

Primeiro preparamos as batatas, que vão dar um pouquinho mais de trabalho.

Depois de lavadas, cortamos as batatas em 4 (ou mais pedaços, se estiver usando batatas grandes) e colocamos em uma frigideira média, com água suficiente para cobrir as batatas (truque que aprendi com Jamie Oliver: ferver a água previamente com um ebulidor – ou mesmo no microondas, para acelerar o processo). Deixe as batatas cozinhando a fogo médio e nesse meio tempo tempere a carne e deixe a grelha esquentando no fogo – ela tem que estar estupidamente quente! Ah, quando digo grelha é aquelas frigideiras tipo grelha, com ranhuras, sabem quais?

No meu caso, tinha em casa um corte de steak bem grosso, então preparei como os chefs chamam de “steak butterfly”, que nada mais é do que cortar o filé ao meio, como se fosse obter dois bifes mais finos porém sem separá-los completamente, de forma que fica parecendo umas asinhas de borboleta (gente, quanto nome pomposo para coisas tão simples, né?). Para temperar o filé usei simplesmente uma pitada generosa de sal e pimenta do reino + azeite de oliva extra virgem. Essa, por sinal, é uma dica ótima: nunca coloque o azeite diretamente na grelha, a não ser que queira “enfumaçar” toda a sua cozinha. Unte os bifes com azeite, salpique o sal e a pimenta e deixe descansar para pegar o sabor.

Nesse meio tempo, refogue 1/2 colher de tempero de alho e sal com uma colher de azeite em outra frigideira. Quando o alho estiver dourando, acrescente o tomate picado, com casca, semente e tudo! Acrescente também um pouco de água, para ajudar a criar o molho (vá com cuidado, espere até ver quanta água o tomate vai soltar). Quando o tomate começar a se desfazer, acrescente o orégano, as alcaparras e as azeitonas já picadas (e sem caroços, claro). Deixe cozinhando a fogo baixo e volte às batatas, que já devem estar no ponto!

Sobre as batatas: essa receita é basicamente aquela de batatas sauté, que todo mundo que gosta de cozinha sabe fazer (rimou, rs). Então não deixe as batatas cozinharem demais, ou quando for salteá-las elas vão desmanchar. A idéia é que elas fiquem cozidas, mas ainda um pouco durinhas. Verifique o ponto das batatas e se já estiver ok, escorra a àgua e volte com as batatas para a mesma frigideira que estava usando antes, diretamente para o fogo. Acrescente uma boa dose de azeite (acho que umas duas colheres de sopa serão suficientes), o raminho de alecrim e a 1/2 colher restante de tempero alho e sal. Daí colega, você terá que saltear as batatas. É muito divertido e no começo desastroso. Mas se eu consigo (não se esqueçam, sou a “sloppy chef”) você também conseguirá! Se ficar com medo, use uma colher para ir virando as batatas de vez em quando, com cuidado, para que não desmanchem. A ideia é de que elas fiquem envoltas em azeite e alho e que comecem a dourar, até ficarem “queimadinhas”, como as da minha foto aí em cima.

Agora, enquanto as batatas estão dourando e o molho apurando, é hora de levar o bife à grelha, que estará mega mega quente – é muito importante que esteja “pelando fogo”, para selar bem a carne e não deixar que ela perca água e fique seca e endurecida. Coloque o bife delicadamente sobre a grelha e espere até aquele cheiro delicioso de carne assando invadir sua cozinha, rs. O tempo de grelha vai variar de como você gosta da sua carne (mal passada, ao ponto,  sangrando, esturricada, etc) e também da espessura do bife, claro. Eu gosto do que os chefs chamam de medium rare, que é aquela carne com o centro vermelhinho e bordas mais escuras. Para isso, normalmente deixo os bifes grelhando por 1 minuto de cada lado (não virem o bife o tempo todo, isso só faz com que ele resseque e fique borrachudo). Ah, lembrando, os meus cortes ficaram com aproximadamente 1 dedo de espessura depois do tal corte “butterfly” (ou seja, se seu bife for mais fino ou mais grosso, você terá que regular o tempo de acordo).

De volta ao molho, que está quase pronto, já bem grossinho! Acrescente o vinho e deixe o álcool evaporar – aproveite para provar e acertar o ponto de sal (aqui eu também gosto de colocar um pouquinho de pimenta do reino). Pronto! Já temos molho!!!

Nessa hora, pelos meus cálculos, a batata também já estará pronta. Ops, não! Falta o pulo do gato! Justo antes de tirar as batatas do fogo, esprema sobre elas (ainda na frigideira) o suco de meio limão (eu aqui uso aquele amarelo siciliano, mas é por falta de opção, porque o limão verdinho é caro demais – imagino que fique ainda mais gostoso com ele, por ser mais ácido). Deixe evaporar um pouquinho, acerte o sal e eccoci qua!, também já temos batatas! O truque do limão é demais, acreditem! Dá nova vida às batatinhas sauté!

Agora a carne também já está pronta, então é só montar o prato: de um lado as batatinhas, do outro o filé e, por cima deste, o delicioso molho.

Prontinho! Agora você vai poder dizer orgulhoso que preparou um delicioso Fettine alla Pizzaiola – ou um bifão com molho de tomate mesmo (pra quê cerimônias, né?)

Espero que esteja tudo bem explicado! E me desculpem pelo post gigante, sou prolixa mesmo!

Soundtrack: Sinnerman | Nina Simone
(foi o que eu ouvi enquanto cozinhava hoje, rs)

The Sloppy Chef

9 abr

Há um mês, mais ou menos, comecei a fotografar alguns dos pratos que preparo aqui em casa. Tudo começou com uma brincadeira de uma amiga, que não acreditou que eu havia preparado um prato javanês pro meu almoço e pediu fotos que comprovassem tal façanha.

Foi assim que nasceu o “The Sloppy Chef: a series of fortunate cooking disasters”, um álbum que mantenho no Facebook para ir registrando minhas experiências culinárias.


Nunca tive maiores pretensões com isso. Sou completamente auto-didata na cozinha, minha formação se restringe aos livros e videos do Jamie Oliver (genius!), aos milhares de programas de cozinha que assisto (desde Ana Maria Braga a Top Chef e Hell’s Kitchen) e a um mini-curso de comida mexicana que fiz em Barcelona – que não durou mais de 3h e onde só cortei tomates para um arroz rojo, rs. Podemos dizer que sou curiosa, adoro inventar modas, não tenho medo de errar.

Só que depois que publiquei as fotos muita gente veio me pedir as receitas dos pratos. O problema é que quase nunca sigo as receitas ao pé da letra, sempre invento alguma coisa diferente e não faço ideia das quantidades. Além disso, como já disse, não tenho nenhuma formação e nem a menor capacidade de criar algum prato autoral – todas as minhas receitas foram garimpadas em algum programa, livro, video do youtube ou mesmo são réplicas – com direito à minha livre interpretação – de pratos que provei em algum restaurante.

Mas já que o último pedido de receita veio de uma querida-futura-mamãe que eu não posso deixar na vontade – sob risco de pegar “bonitinho” (dá licença que eu acredito em mandinga de grávida, tá?) – resolvi que vou começar a postar as receitas aqui no blog. Se não conseguir resgatar a receita correta, prometo ao menos publicar uma aproximação ao modo de preparo, rs.

Soundtrack: Ride With Me | To All My Friends

Friends Feelings

10 mar

Hoje fiquei lembrando da minha última semana no meu apê de Barcelona. Marido já tinha vindo pra Alemanha, ou seja, fiquei uns 10 dias lá sozinha com a bagunça, as caixas e as lembranças. Ficamos acho que dois anos e meio naquele apertamento de 35 m2, mas coube tanta coisa ali dentro! Tantas visitas, tantas histórias, tantos papéis e fotos, as rolhas de todos os vinhos que tomamos ali, as brigas que todo-casal-tem, um casamento planejado à distância, os vizinhos infames, os vizinhos queridos e, principalmente, muita muita felicidade.

Me lembro que na minha última noite ali, num surto masoquista, assisti três vezes ao último episódio de Friends. Nunca mais me esqueci do que Monica disse quando todos se reuniram para entregar as chaves do apê: “This is harder than I thought it would be”.

Não, não é fácil deixar uma história pra trás. Sabe-se lá porquê, derramei zero lágrimas quando vim embora, nem uminha, em nenhuma das minhas despedidas. E quando fui embora, correndo atrasada com mil malas, não tive tempo nem disposição de fazer cena: deixei a chave na mesinha da entrada, uma última olhadela pra ver se nada ficava pra trás, fechei a porta e tchau. Só que quando cheguei no aeroporto de Bonn-Colonia e vi marido me esperando a ficha caiu – sim, você foi embora! – e foram mais ou menos 2 horas de choro compulsivo.

Hoje, quase um ano depois, algumas lembranças ainda seguem bem vivas. Ainda dói lembrar de muitas coisas e lugares, pensar que há uma vida acontecendo por lá que não estou mais vivendo. Em compensação, outras memórias já começam a esvanecer. Já não lembro nomes de ruas por exemplo, ou o site do restaurante onde eu sempre pedia meu almoço (Felix, de la cuina a l’oficina!) – coisas que antes me pareciam tão óbvias. Enfim, a cada dia mais me convenço de que o tempo realmente joga no nosso time e nos ajuda nessa árdua tarefa de deixar as coisas simplesmente irem embora.

O mais engraçado – e bacana! – é que pouco a pouco vou começando a descobrir e a absover esses pequenos detalhes da nova vida aqui de Bonn: os horários dos ônibus (quase sempre pontualíssimos!), a melhor livraria da cidade, o cabeleireiro bacana, minha marca de iogurte preferida, os vários mercados, a padaria ideal para um brunch delicioso…

Só que hoje me peguei sofrendo por antecipação, pensando que daqui alguns anos lá estarei eu protagonizando mais uma vez o último episódio de Friends, entregando a chave desse apê e chorando em outros aeroportos. Não é fácil essa vida de cigano, viu? Queria de verdade me apegar menos às pessoas e aos lugares – um dia aprendo.

Soundtrack: Shake it Out | Florence + The Machine

Funeral Etiquette

26 ago

Depois de quase três semanas fora de casa, em meio aos muitos folhetos de propaganda que deixaram na nossa caixa de correspondência, estava uma carta comunicando o falecimento da nossa vizinha – e landlady – Frau Blöhs.

Frau Blöhs foi bem simpática consco quando nos mudamos e já sabíamos que estava doente, mas nunca imaginei que partiria tão cedo. Era tão doidinha que nos atendeu de camisola um dia em que fomos a sua casa pagar o aluguel e levar uma lembrancinha, rs. Seu filho Uwe  sempre foi nosso tradutor, já que é o único que fala inglês na família e nos autorizou a duzá-lo logo de cara. “Duzar” significa tratar como “você”, pelo primero nome e não como “senhor”, utilizando o sobrenome – algo que é bem incomum na Alemanha quando não se tem muita intimidade com a pessoa. É um cara bacana o Uwe, muito simpático mesmo, sempre sorridente e prestativo.

Daí que agora aconteceu isso e nós simplesmente não sabemos o que fazer. Minha primeira ideia foi mandar flores e um cartão à família, mas traduzindo o comunicado de óbito, vimos que as coisas não seriam tão simples assim…

Não sei se é o costume na Alemanha, mas tudo soou bem diferente pra nós:

- 1: Frau Blöhs faleceu há exatamente sete dias e o velório/enterro será somente hoje.

- 2: pedem que as pessoas evitem prestar condolências diante do caixão durante o enterro.

- 3: pedem que ao invés de enviar flores e coroas seja feita uma contribuição a nome dela para uma entidade filantrópica aqui de Bonn.

- E 4: em um cartãozinho em anexo, dizem que após o funeral a família receberá os “convidados” num pub aqui perto de casa.

Bom, era um comunicado geral que provavelmente enviaram a todos os vizinhos. Achei tudo muito surrealista, mas agora começo a pensar que tem muito sentido, especialmente o número 3. Alemães podem ser  meio frios  e calculistas, vão direto demais ao ponto, mas muitas vezes tem razão no que dizem. Nunca achei mesmo que fazia muito sentido aquele monte de flores num velório. Gasto desnecessário sendo que há coisas muito melhores para se fazer com o dinheiro – apesar de que quem manda sempre tem a melhor das intenções, claro.

Enfim, decidimos que não iríamos à missa-velório-enterro-almoço. Demasiado íntimo, em nossa opinião. Consultando amigos alemães, também disseram que melhor não ir. Só que agora não sabemos o que fazer… Deixar um cartão de condolências na caixa de correio do filho? Ir pessoalmente dar os pêsames daqui alguns dias? Fazer o depósito na conta da ONG? Não fazer nada e esperar que um dia o veja no corredor pra dizer “I’m sorry”?

Ai, ai, ai… Como é difícil entender as regras de etiqueta num país tão diferente do nosso… Minha vontade era ir lá, dar um abraço no Uwe e dizer que tudo vai ficar bem. Assim de simples.

Mas como fazer isso com um alemão sem que ele me ache louca?

Soundtrack: Casimir Pulaski Day | Sufjan Stevens

L’equip gran, molt gran

3 ago

Um dos motivos que me levou a querer trabalhar com esporte – apesar de hoje em dia ter desviado um pouco o caminho – é isso aqui embaixo:

 

 

Vejo o esporte em geral  como algo muito maior do que passa na tv, nas Olímpiadas e nas Copas do Mundo, por isso insisto e perco minhas noites de sono escrevendo sobre o tema. E se o futebol para muitos é sinônimo de dinheiro & fama, pra mim é simplesmente isso: um esporte de equipe, elemento de socialização, uma maneira de ensinar valores que vão muito, muito além da vitória a qualquer custo.

molt gran, equip!

Sim, é certo: nem eu nem as crianças do documentário vamos mudar o mundo. Mas pelo menos fazemos nossa parte ;)

Soundtrack:  Heads Up | Karen O And The Kids

Para alegrar as paredes

29 jul

Inspirada pela foto enviada por uma amiga querida, montei um poster simplinho pra enfeitar nossas paredes novas – as minhas e as dela, que também terá a “arte” pendurada em seu cantinho lá em SP.

A frase eu já conhecia, atribuída a Napoleão Bonaparte. Apesar de não ser muito fã do sujeito, não posso estar mais de acordo! Pra imprimir – e enfeitar suas paredes também – é só clicar na foto e fazer o download do arquivo em alta resolução.

Soundtrack: Colours | Donovan

O passado passou?

28 jul

Ontem passeando pelo  Tudo de Bonn – blog salvador da Arlete, que me ajudou com várias dicas sobre a nova cidade  – acabei indo parar em outro blog, o blog do A. C. Peralta, que é tipo um museu online de sua família. Adorei a ideia e ojalá pudesse fazer o mesmo sobre a minha!

Quem me conhece sabe o quanto gosto de história – não só essa história que aprendemos nos livros, mas de toda a história por detrás de cada coisa que está à nossa volta. Adoro escutar causos antigos de família – da minha e da dos outros! Amo um cacareco e meus olhos brilham mesmo em feirinhas de antiguidade, brechós e afins. A cadeira em que estou sentada nesse momento tem uma história que acho fofa – bom, só sei uma parte e o resto inventei pra mim mesma, rs – um dia compartilho por aqui.

Claro que já ouvi muitas vezes a famosa frase de que quem vive de passado é museu e, acredite, acho que isso deve ser mesmo aplicado em algumas áreas de nossas vidas – quer coisa mais triste do que ficar revivendo um amor antigo, por exemplo? Taí uma coisa que aprendi: relacionamento passado é passado mesmo!

Mas então, toda essa baboseira melodramática é pra fazer sala pra um mini-texto bem bonito sobre a importância do nosso passado e como ele influencia quem somos hoje em dia. Li no blog-museu que falei aí pra cima e resolvi guardar aqui, pra ler e reler sempre que alguém me questionar os porquês de eu tanto me interessar pelo que já passou:

“It is a mistake to think that the past is dead. Nothing that has ever happened is quite without influence at this moment. The present is merely the past rolled up and concentrated in this second of time. You, too, are your past; often your face is your autobiography; you are what you are because of what you have been; because of your heredity stretching back into forgotten generations; because of every element of environment that has affected you, every man or woman that has met you, every book that you have read, every experience that you have had; all these are accumulated in your memory, your body, your character, your soul.”

- Will Durant -

Posso dizer que esse cheirinho de mofo que carrego comigo convive muito pacificamente com meu amor pelas novas tecnologias, pela arte contemporânea, pela literatura pop inglesa e por outras várias coisas fresquinhas que chegam até a gente cada dia. É bom ser meio contraditório, né? E acho mesmo que amar as velharias só te faz entender melhor as novidades, afinal já disse Lavoisier que não se pode criar algo simplesmente do nada :)

Soundtrack: One of these things first | Nick Drake

Date with Ikea

27 jul

Cheguei há 2, quase 3 meses. Depois da estadia na guest house de luxo (sério, nunca vi uma tão bacana!), viemos finalmente pro nosso apê. Foi a primeira vez que me mudei pra uma casa sem absolutamente nada dentro, nem lâmpadas, nadica de nada mesmo. Mentira, tinha cozinha – mas só porque compramos todos os móveis e eletrodomésticos do antigo morador (senão seria apenas um cômodo com paredes azulejadas e canos saindo por todos os lados).

Quem já passou uma temporadinha que seja fora do Brasil – especialmente nos EUA ou aqui nOropa,  sabe que casa nova é sinônimo de Ikea. Tá bom, tem quem possa mobiliar um apê todinho na Vitra ou em alguma outra loja de design, mas nós, pobres mortais com salários normais, temos ao nosso alcance a incrível, maravilhosa e fenomenal Ikea. Sério, é muuuito amor pela lojinha – lojona, né? Porque o negócio é imeeenso! Corredores e mais corredores e ambientes mais ambientes com móveis lindos e outras coisinhas sensacionais – de cortinas de banho coloridinhas a descaroçador de azeitona. Pra mim é um parque de diversões, a Disney da decoração. Me chame pra ir lá e faça uma criança feliz! Não preciso nem comprar nada, só te acompanho e ajudo a carregar as sacolonas azuis!

brincando de trabalhar em um dos ambientes de escritório - Dianinha arrasando na decor!

Então que no dia anterior à mudança – aniversário do marido, btw – fomos de excursão a um dos Ikea que temos aqui perto.  Café da manhã reforçado pra poder encarar as muitas horas de passeio pelos intermináveis corredores. Compramos de tudo: lustres, lâmpadas, sofá-cama, um escritório completo (que montamos com bancadas de cozinha – depois mostro que bacana ficou!), mesas, cadeiras, estantes, espelhos e futilidades mil pra cozinha. Ikea é baratinho mas claro, tudo isso deu uma conta bastante considerável de 4 dígitos. Chegando no caixa, carrinhos e sacolonas azuis lotadas, a grande notícia: “Ikea Germany does not accpet credit cards”. E lá vamos nós, sacar o dinheiro num Geld Automat (adoooro que aqui caixa eletrônico se chama Dinheiro Automático!) estrategicamente localizado perto dos caixas. O atendente bonzinho me diz espantando quando volto com a dinherama: “That’s a lot of money!” – aham, eu sei colega!!! Juro, isso do cartões de crédito aqui em Germany é assunto pra outro texto, aff!

15 dias depois estávamos lá de novo, pra mais um passeio – ops, pra comprar o que ficou faltando: armário, cama de verdade com colchão (sim, dormimos por esse tempo todo no sofá-cama!) e panelas (sim, também ficamos esse tempo todo comendo porcarias porque não tinha panela pra cozinhar!). Ficou faltando a sala de estar e coisinhas pra decorar a casa, e por isso estou super animadinha, porque provavelmente no próximo sábado tem mais visita à lojinha!

É muito bom ver a casa da gente ganhando a nossa cara. Poder escolher tudo do jeitinho que a gente quer. Claro, se dinheiro me sobrasse, teria minhas Eames Chairs ali enfeitando a sala, mas com o Ikea me viro bem! Acho os móveis bonitos, de bom gosto e com qualidade correspondente ao preço – ou seja, não vão durar a vida toda mas dá pra comprar feliz!

Único porém: TODOMUNDOTEMIGUAL. Sim, como disse antes, aqui todos os mortais compram coisas Ikea para suas casas, então não é nada impossível chegar no apê do amigo e dar de cara com o lustre lindo que você orgulhosamente pendurou no seu quarto. Então, vamos à pergunta do milhão:  o que fazer pra não ter uma casa igualzinha à do vizinho?

Encontrei a solução aqui, no Ikea Hackers – um site super bacana sobre como as pessoas adaptam os badulaques Ikea para sua realidade. Estante que vira mesa, prato que se transforma em relógio, escorredor de macarrão que faz as vezes de lustre… No Ikea Hackers tudo é possível! São olhares novos sobre os produtos de sempre, o que significa fonte inesgotável de inspiração!

Além disso, vale a pena garimpar ideias em blogs de decoração e do-it-yourself. Há muitos bem bons por aí! Meu preferido, não só pelas ideias incrivelmente simples mas também pela simpatia de sua dona, é o Casa de Colorir. Ainda vou colocar em prática várias das dicas que vi ali. Vale muito a pena a dica dos “azulejos de vinil”, com direito a vários videos fofos, com trilha sonora maravilhosa  escolhida a dedo pela Thalita. Fico sempre aqui eufórica quando vejo uma atualização, porque é certeza de que lá vem fofurice!

Outra boa solução são os sites de segunda mão e as feirinhas de antiguidade, melhores amigos das pessoas que, como eu, adoram um cacareco! Aqui meu queridíssimo é o Kalaydo e em Barcelona já comprei coisas bacanas no Loquo – vale a pena dar uma garimpada na parte de móveis e ver se lá está aquela mesinha de cabeceira que você tanto quer! Com carinho, boa vontade e um pouquinho de tinta a velharia pode ficar incrível!

Soundtrack: I’m Into Something  Good | The Bird And The Bee

Im Gästehaus

20 mai

Nunca fui uma pessoa que se mudou muito na vida. Passei toda a infância, adolescência e juventude na mesma casa. Os vizinhos eram sempre os mesmos, as compras eram sempre feitas no mesmo mercado, o pãozinho vinha sempre da mesma padaria – que por várias vezes mudou de nome, mas nunca de funcionários. Longe de ser aburrida, a vida por ali era bem boa, tão tranquila quanto a vida em uma cidade grande  pode ser. Mas apesar de toda a rotina e tranquilidade aparente sempre tive uma inquietude aqui dentro do peito, uma vontade danada de sair e conhecer o mundo lá do outro lado da serra.

Comecei a viajar pra longe bem cedo, aos nove anos, se me recordo bem. Sim, me recordo bem! Viagem maravilhosa, primeiro gostinho de independência, um mês sem meus pais – o que resultou em uma mala tão, mas tão bagunçada, que rende assunto até hoje – vergonha, era caótica desde pequena. Mas enfim, talvez ter começado tão cedo nessa aventura de descobrir o desconhecido tenha influenciado bastante minha personalidade curiosa – bastante voluntariosa às vezes – e meus desejos de querer sempre ver o mundo além do meu umbigo. Porém a estabilidade do meu QG (vamos chamar minha casa em BH assim) também me aportou outras coisas que hoje, só hoje, reconheço: esse apreço pelo local, pela cultura, pelas pessoas. Essas ganas de entender o que passa na cachola de cada povo que conheço, uma alma meio de antropóloga louca, sabe? Vieram sempre muitas viagens, para todas as partes, mas agora é diferente.

Desde 2006 vivi em imersão cultural na linda e increïble Barcelona. Posso dizer que me adaptei bem à vida catalana – viveria pra sempre fazendo dieta mediterrânea e convivendo com o caos turístico das Ramblas, por exemplo. Quando cheguei ali me disseram que os espanhóis eram muito parecidos a nós, brasileiros. Descobri com o passar do tempo que Catalães fogem um pouco a esta regra – pra bem e pra mal. Porém me acolheram tão bem, me mostraram com tal carinho suas raízes, que hoje, depois de 5 anos, me sinto um pouco parte daquilo tudo.

Há dois dias deixei pra trás essa parte da minha história e vim para Bonn. Doeu muito, mais do que quando me fui do QG e deixei a família de sangue pra trás. O QG estará sempre ali, eu sei. É meu ponto de apoio, minha base e pra onde posso voltar sempre que quiser. Ali estão os amigos de toda a vida, está o mercado de sempre e a padaria que já deve ter mudado de nome outra vez. Quando me fui, em 2006, tudo tinha esse gostinho de aventura, sentia uma ansiedade gostosa – fui embora sem olhar pra trás. Porém em Barcelona foi onde construí minha vida pela primeira vez, onde me independentizei realmente. Onde re-conheci meu marido. Onde fiz amigos que se tornaram a minha família por afinidades. E saber que talvez eu nunca volte a cruzar aquelas ruas, a ouvir as brigas dos vizinhos, a ir ao mesmo bar de sempre, me deixa com aquela sensação de perda que só os nostálgicos podem compreender.

“Significado de NOSTALGIA: s.f. Melancolia, tristeza causada pela saudade de sua terra.Saudade do passado, de um lugar etc”. Pois é isso que estou sentindo neste momento, aqui na guest house de luxo do Max Planck, nos meus primeiros dias de Bonn. Barcelona se tornou, assim como BH, parte de mim.

Mas como não podia deixar de ser, a antropóloga louca que levo aqui dentro já começa a ficar ansiosa pela nova aventura. Para mergulhar na alma desse povo que dizem ser tão diferente de nós. Para desbravar seus supermercados, feirinhas, lojas de antiguidades. Pra ouvir a música local, mesmo sem entender o que diz a letra. Pra ver o look das chicas alemanas e descobrir as melhores bookstores da cidade.

E assim a vida segue. Trabalhando remoto desde casa, conectada aos meus compis de escritório em Barcelona pelos maravilhosos Skype e Dropbox . Os amigos e a família os tenho aqui comigo, do outro lado da tela do computador – já disse o quanto AMO tecnologia? Lá fora, todo um novo mundo: pessoas pra conhecer, um idioma novo pro curriculum, muita história pela frente.

Ânimos exaltados, companheiros! Que é preciso sempre dar lugar ao novo, mesmo que com lágrimas nos olhos de saudade do que passou.

Soundtrack:  Two Kinds Of Happiness | The Strokes

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